
A gente se acostuma a deixar as janelas de casa fechada, a ligar as luzes mais cedo e achar forte demais a luz do sol. Nos acostumamos com a demora e a inanição, com os planos que caem em meio ao vão e os sonhos que são somente sonhos.
Nos acostumamos com as palavras ofensivas tão comuns, com as coisas bonitas banalizadas, com o medo, a insegurança e a decepção. Não nos arriscamos tanto, perdemos chances e sentimos falta dos lugares, das pessoas, das gotas de chuva caindo no rosto.
Nos acostumamos com a poluição e a escassez de ar puro, com propagandas coloridas, e com a falta de cor de nossas próprias vidas; com o azedo da fruta que compramos ainda verde nas bancas, porque é muito difícil plantar árvores em apartamentos.
Mascaramos nossas vontades como se as vias lotadas e os barulhos das buzinas fossem um acréscimo doce à paisagem cinza montada pelos prédios, como se os assassinatos nos jornais fossem necessários ao nosso mundo e as guerras somente mais um passatempo. Compramos comida pronta com sabor de pressa, pegamos o ônibus lotado e parece muito bom ainda ter um lugarzinho apertado no último banco; depois de noites de insônia temos até um sorriso quando acordamos de um sono pesado sem sonhos bonitos.
Nos acostumamos com a dor.
Nos acostumamos a passar por provas, a acreditar que sempre haverá um perdedor, nos acostumamos com mentiras. Passa a ser rotineiro agirmos como fantoches, como caixas de metal, frios como o aço e rijos como pedras.
Não nos acostumamos com o mundo, nos acostumamos com a falta de humanidade nas pessoas.