quinta-feira, 28 de junho de 2012

'Como o tempo vai e o vento vem' ♪

Ao som de Marisa Monte, meu pensamento solta as asas. Ainda não sei se leve como uma pena ou como um passarinho. Parece que ele encontra os próprios caminhos como água correndo na pedra.
Hoje o clima está ótimo, o meu preferido. Inverno com gosto de infinito, sol que aquece a madeira, vento com textura de abraço. Dias como esse fazem com que eu me sinta em casa na rua; com que eu me reconheça nas músicas, nos livros, nas calçadas, nas paredes dos prédios; com que eu, me perdendo, me encontre mais perfeitamente.
Depois de algumas variações entre dia e noite, eu já sentia falta de escrever e dos vícios de linguagem. Já até perdi a conta dos meus boletins literários por aqui... Terminei há cerca de um par de semanas a leitura de Ensaio Sobre a Cegueira, e tenho boas recomendações sobre este, em especial. Daquele momento em diante, um exemplar da autoria de Lya Luft tentou sem sucesso encontrar seu espaço nas minhas mãos; começo a achar que essa incompatibilidade foi uma questão de natureza. Entretanto, uma edição com sonetos de Camões foi escolhido a dedo e ganhou lugar na mesa de cabeceira, o que satisfez a minha parcela lírica, que reclamava espaço como criança mimada nos últimos dias.
Continuo ansiosa para o início das aulas na UFRGS, como não poderia deixar de ser. Uma das melhores coisas de começar a estudar no segundo semestre - excetuando os pontos não tão bons.. - é a expectativa. Ela e o tempo ocioso do qual desfrutamos tornam a felicidade ainda maior - somos 'bixos' pelo que parece uma eternidade -, e isso é ótimo!
Vagarosamente cai a noite. Como caem as estrelas cadentes ou como os aviões se parecem quando vão ao encontro do pôr-do-sol.
Boa noite, anjos. Bons sonhos.

"[...] Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."
Ensaio Sobre a Cegueira, José Saramago

quarta-feira, 13 de junho de 2012

'Do escuro, eu via o infinito, sem presente, passado ou futuro' ♪

De repente ouvir as músicas do Cazuza é bom. Acalma como o coração de um poeta cantando um poema.
Hoje foi o dia da matrícula na UFRGS, a tão esperada data que eu comentei no último post. Acordei ansiosa como criança, organizei tudo com disposição atenta e fui. Fui.

Logo na chegada, os veteranos nos fizeram passar por algumas situações meio engraçadas - declarações de amor e coisas do tipo -, mas nos trataram com bastante respeito, pelo menos em relação a mim - item pelo qual meu pai quis conferir de perto, inclusive é ele na foto, ao fundo -. Foram todos muito receptivos e bem dispostos.
Mais tarde, com a matrícula pronta, turmas escolhidas e alguns conhecidos encontrados, era a hora das tintas. Devidamente paramentados com jalecos e com luvas, os artistas fizeram de nós 'arte moderna', pelas palavras de um dos 'torturadores'. Meu cabelo que o diga; adorou a tinta. Meus braços, para não se sentirem sós, criaram uma afeição especial pelo esmalte.
Depois de limpar tudo que era possível das tintas na pia do banheiro da FAMED, fui ao curso de alemão, porque eu tinha uma sensação especial de que a professora marcaria uma prova para a próxima semana. Não estava enganada. Ao menos não foi em vão que caminhei do Hospital ao Instituto Goethe em tempo recorde enquanto almoçava um pedaço pequeno de chocolate suíço forte, 85% de cacau.
Chegando em casa, eu ainda não conseguia conter o sorriso - é difícil evitá-lo até mesmo agora -. Já tenho horários, turma, colegas... Sei que soa infantil, mas parece um sonho. Acho que vai levar um tempo até acordar. E não me importo. Todos os projetos já foram um sonho, nem que por um instante, antes de se realizarem.
Só foi uma pena que não conheci ainda o meu padrinho, que deixou essa plaquinha pronta para mim, mas não pôde comparecer hoje por motivos de saúde. Ao menos ainda tenho seis anos para entregar os tais chocolates importados que prometi a ele - ou até que o dito vença...

Enfim, fico muito feliz em registrar por aqui esse momento tão especial pra mim. Agora é hora de terminar a leitura de Ensaio Sobre a Cegueira antes que a lâmpada do meu quarto 'queime' e me impeça novamente de ler na companhia do edredom.
Boa noite, anjos. Bons sonhos.

terça-feira, 12 de junho de 2012

'So I throw the windows wide, and call to you cross the sky' ♪

Amanhã é o dia. Durante o período de férias nesse ano - a partir do qual minha vida passou a ser contada em semestres -, algumas datas no calendário da UFRGS se tornaram marcos na minha referência de tempo. Entre elas, está o dia da matrícula, a partir do qual poderei me considerar de fato estudante de medicina. Acontece que amanhã é o dia.
Eu sei, pode ser besteira, mas estou muito ansiosa. MUITO. Por ter tantos meses de férias, parece que o tempo se arrastou até aqui, e as últimas horas antes da quarta-feira 13 são angustiantes de tão eternamente rápidas. Contraditoriamente.
Já está na hora de dormir uma noite inquieta, sorridente, assim como foi o clima hoje. A temperatura ambiente estava maravilhosa - há tempo eu não usava esse adjetivo -, ideal para redescobrir o silêncio paciente de uma caminhada ao ar livre.
Boa noite, meus anjos. Quanto a mim, nem sei se será possível dormir ainda hoje. Em todos os casos, bons sonhos.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

'Me diz, me diz, pr'onde é que a gente vai fugir?' ♪

Às vezes tenho medo de esquecer. De já não lembrar das medidas, das fotos, da música, do som, do abraço, da letra. Acho que é por isso que guardo as coisas, as roupas, os escritos: para guardar também o carinho.
Revolver um baú com memórias nem sempre é fácil. De repente dói uma parte mais ao fundo, e o pensamento voa longe junto com a lembrança, querendo captar todo resquício de sensação. Assim como uma sinfonia capta o sentimento de um artista, ou o texto, de seu autor.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

'Quando tudo está perdido, sempre existe uma luz' ♪

"Chegara mesmo ao ponto de pensar que a escuridão em que os cegos viviam não era, afinal, senão a simples ausência de luz, que o que chamamos cegueira era algo que se limitava a cobrir a aparência dos seres e das coisas, deixando-os intactos por trás do seu véu negro. Agora, pelo contrário, ei-lo que se encontrava mergulhado numa brancura tão luminosa, tão total, que devorava, mais do que absorvia, não só as cores, mas as próprias coisas e seres, tornando-os, por essa maneira, duplamente invisíveis." Ensaio sobre a Cegueira

Nessa semana concluí a leitura de Renato Russo: O Filho da Revolução, de Carlos Macedo. Embora o livro não seja como eu imaginara, foi uma experiência bem interessante. O foco abordado pelo escritor é, na maior parte, o contexto no qual se desenrolou a vida de Renato Manfredini Jr. - a opressão da ditadura e o grito de libertação da juventude brasiliense, entre outros -, o que nos permite novas interpretações até mesmo para o lirismo de suas canções.
Como nos últimos anos se tornou rotina, logo fui em busca de outro par de folhas no qual acomodar o marca-páginas. Acho que não vou me reconhecer mais quando não estiver envolvida em alguma leitura; pensando melhor, nem mesmo me lembro quando foi a última vez em que eu me vi livre de algum compromisso literário. Retomando o ponto, escolhi entre os exemplares da fila uma edição de Ensaio sobre a Cegueira, da autoria de José Saramago. Esse é um livro que eu adquiri ainda na feira do livro do ano passado e que eu espero ansiosamente por ler desde que assisti ao filme homônimo. A adaptação cinematográfica foi tema de um trabalho escolar e a considero bastante impactante, não apenas pelo enredo, mas pelas emoções que a brilhante direção de Fernando Meirelles nos proporciona. Sei que muitas pessoas podem não partilhar da mesma opinião; entretanto, foi um filme que mexeu comigo. Desse modo, acredito que o livro será uma 'viagem' recompensante. Como o escrito na contracapa, 'José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto [...]'.
Fui vítima nessa quinta-feira da fúria da janela aqui de casa, que caiu em cima dos meus dedos enquanto eu a trancava. Senti uma dor terrível no momento, mas, por ora, as marcas roxas e o inchaço leve são as lembranças mais perceptíveis do acontecido. Nada quebrado, felizmente. É claro, também ficou bem gravada a anotação mental: prender bem as vidraças antes de fechar a janela!
Hoje tomei a primeira xícara de café 'preto' que eu não rejeitei de prontidão - nem logo após o primeiro gole -. O líquido escuro que das outras vezes era amargo ganhou gosto de companhia com humildade e coração aberto; gosto de amizade pura.
Às vezes tenho o coração doído por não poder estar onde ele - quanto poder a uma víscera! - deseja, por não poder estar em todos os lugares nos quais ele deseja. Nesses momentos tenho vontade de estraçalhá-lo em pedaços e entregá-lo como presente que supra minha ausência. Entretanto, sei que o amor precisa dele inteiro, não em pedaços; necessita de uma cesta inteira, não de alguns retalhos. Então jogo com o tempo - aquele que está somente no pensamento - e faço o melhor que esse senhor me permite. Por isso, embora me contraia em dor nesses instantes, guardo o coração íntegro para estar sempre disponível a mais e inteiramente.

Boa noite, anjos. Bons sonhos.