"É sobre escalar e sentir que o caminho te
fortaleceu
É sobre ser abrigo e também ter morada em outros
corações
E assim ter amigos contigo em todas as
situações"
Trem-Bala - Ana Vilela
2016 está
terminando, e de repente tenho tantos sentimentos pra dividir que preciso das
palavras pra estender a alma. Que ano!
Há pouco mais de
seis meses comecei o internato na faculdade de medicina e assim tenho aprendido
cada dia mais sobre as doenças e sobre os tratamentos, mas também sobre a vida
e sobre as pessoas, inclusive sobre mim mesma. Passo mais tempo no hospital do
que em casa, e nesses meses tenho visto tanto sobre o limite da vida, nem
sempre com final feliz.
Acompanhei
pacientes em UTI, e diante de alguns deles questionei até que ponto chegaríamos pra sustentar o coração batendo. Estávamos tentando
salvar ou sendo egoístas e fazendo sofrer? Até que ponto mais um cateter
e uma bomba de infusão curariam? Apesar desse ambiente de cuidado intensivo que
parece hostil visto de fora, vi o amor daqueles que cuidam, e quis aprender esse amor também também. Vi que a gente precisa ser fonte de esperança e de alegria aí.
Na emergência,
dei notícias que ninguém gostaria de dar e ouvi perguntas que me deixaram muda e
desconcertada. Vi a vida acabar de repente, na meia idade, e amparei; nesse
dia, toquei as mãos de Cristo que sofria com aquele que morria e então eu
percebi onde Ele estava todo tempo. Amparei aqueles que não sabiam nem o nome
do doente, mas que estavam no leito do lado e se defrontaram com a morte que
nem de perto conheciam. Eu quis dizer que aquilo era novo pra mim também, mas
não disse.
Mais que os
limites do corpo, conheci algumas fugas da mente. Ouvi aquelas que não queriam
mais existir e aquelas que queriam ser tão boas que não conseguiam se ver mais
com clareza. Ajudei a fazer planos de uma vida diferente e ajudei a cultivar
sonhos. Vi que a gente precisa ser mais compreensivo e ouvir mais. Comecei a
aprender a examinar a alma.
Acompanhei
homens que cometeram crimes que eu não sabia a gravidade, mas que eram humanos
e precisavam de cuidado assim como qualquer um precisa. Conheci crianças que
potencialmente tinha cometido crimes parecidos. Percebi a violência que
percorria a cidade e tive medo, mas não podia deixar de apreciar cada rua com
seus ipê coloridos florindo naquele setembro. Lembrei de Quintana, um amante de Porto Alegre.
Passei dias e
noites no hospital. Pela primeira vez vi uma mãe perder um filho de perto, e
depois de oferecer todos os recursos médicos possíveis e até os que não estavam
disponíveis, ofereci meus braços pra conforto. Vi as coisas indo mal e cada vez
pior. Lembro de cada tracinho da história, e como doeu. Como foi difícil.
Amadureci nesses dias como nunca antes. Nasceu aí uma vontade de ser médica que
eu ainda não tinha descobrido igual, e passei a amar mais aquilo que antes eu
admirava. Fiquei grata ao fim do mês, como outras vezes fora, pelo carinho que
recebi de tantas pessoas e pelos profissionais dedicados que conheci. No meio
de tempestades, como é bom trabalhar ao lado de amigos.
Aprendi a
conhecer a vida como ela é e a não tratar doenças, mas pacientes. Entendi que a
gente precisa fazer cada instante valer a pena pra poder olhar pra trás e ficar
feliz: perdoar mais, amar mais. Vi o limite da vida e os medos que ele traz. Vi a vida no seu limite.
Vivi mais da
cardiologia e me comprometi em aprender. Vi casos graves em que não tinha
recursos pra oferecer e me senti incapaz. Vi casos graves em que foi usado todo
recurso que se tinha, e assim um coração voltou a bater pra dar nova vida a um
sorriso e a uma família; fiquei encantada por ver isso acontecer de
perto. Pude estar onde queria e tive vontade de ter muito mais de tudo
isso.
Nesse mês e ainda nessa noite venho refletindo muito sobre uma frase do professor Mario Rigatto sobre o médico: "Sempre me pareceu difícil reunir, num mesmo indivíduo, tão nobre textura e tão rude couraça". Parece que é assim mesmo.
Nesse mês e ainda nessa noite venho refletindo muito sobre uma frase do professor Mario Rigatto sobre o médico: "Sempre me pareceu difícil reunir, num mesmo indivíduo, tão nobre textura e tão rude couraça". Parece que é assim mesmo.
2016 termina com
muitos sentimentos, com muito aprendizado, com mais amor pela medicina e pelo
cuidado, com imenso carinho pelas pessoas queridas que animam a jornada, com
mais vontade de viver e de ser mensageira de esperança e de felicidade. Que o
próximo ano seja de mais, muito mais!