Estou no quinto ano, faculdade de medicina. Sexta-feira, primeiro dia no estágio da emergência. Emergência lotada, com quatro vezes a capacidade de pacientes, mas com os mesmo recursos (espaço pra macas, equipe de enfermagem e médicos, material). Dividimos os pacientes pela lista, sabendo apenas o nome e poucos dados clínicos: uma senhorinha e outra senhora mais jovem. Atenção na senhorinha por um minuto. Inicio a revisão de prontuário, e vejo que estava há alguns dias internada. Pesquiso os exames. Biópsia hepática. Resultado liberado hoje. Ainda não comunicado. É câncer.
Eu, que a conheci naquele dia, seria uma das portadoras da notícia que não é agradável pra quem recebe nem pra quem comunica. Começamos assim. À tarde fomos falar, o plantonista e eu. A senhorinha, estatura baixa, pele parda-amarelada, ictérica, de olhos pequeninhos, semblante tranquilo, acompanhada da filha. Enquanto o médico desfiava as palavras, os olhos da filha viravam poço de água limpa e abundante, enquanto a senhorinha cerrava os lábios e continha as lágrimas que queriam vir. Eu queria mesmo era poder dar notícia melhor e mais feliz. Queria anunciar vida, cura e alívio. De repente estava ali, anunciando sentença. "Como tu te sentiu dando essa notícia?". Penso um pouco em tudo que senti, e vem uma palavra: "Triste". "Que bom. Muita gente endurece o coração e não consegue nem se sentir triste mais", disse o médico.
Passam os dias e segue o manejo sintomático, porque o tratamento seria planejado em consultas de rotina. "Então tá bem, volto mais tarde pra lhe ver". Viro as costas e me afasto devagar. Percebo que alguém me segue. "Vou aproveitar pra ir ao banheiro... Moça, moça! Eu queria saber uma coisa. Pode ser incurável? Quanto tempo a minha avó tem de vida?". Eu queria te contar a imensidão de coisas que pode ser. Eu queria dizer que o prognóstico é bom, que o tratamento é leve e fácil. Não era. Só tínhamos parte dos exames pro estadiamento, o que não era o suficiente para planejar nada. Ninguém merecia receber qualquer diagnóstico naquele lugar. Pelo menos, que tivesse carinho e atenção de quem cuida. Fui ao refeitório, e o café parecia não descer bem. Tinha alguma coisa na garganta. Acho que era um nó.
"Só vamos dar alta quando a senhora se sentir bem, e vamos enfrentar isso juntos". Nos próximos dias, incluindo o final de semana de plantão, apresentava face alegre e pouco preocupada. "Comeu bem?". "Sim, comi! Enjoei um pouco depois, mas aí sim me senti muito bem". "A senhora está pronta pra ter alta? Tranquila?". "Sim". "Então estou tranquila também."
Senhorinha, traços indígenas, olhos pequenos, baixinha, algo ictérica, resiliente, bem disposta. Obrigada por ser tão boa professora nessa vida.
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