Elizabeth Kuebler-Ross
Há muito tempo não apareço por aqui. Sei disso. Talvez tenha sido a pressa ou mesmo a falta de vontade que tenha me deixado afastada. É preciso ser sincera. Mas como tenho dito, todo ser humano tem vontade - ou mesmo necessidade - de escrever.
Nesses últimos dois anos aconteceram coisas demais, e não voltei pra recapitular tudo. Foi tempo de aprendizado, crescimento, cultivo de amizades, da família e da fé. Esse último ano, em especial.
Na faculdade, iniciei o ciclo clínico, onde passamos a ter mais contato com pacientes. No primeiro semestre do ano, a matéria de semiologia, onde víamos as pessoas como em fotos. Na maioria das vezes conversávamos, examinávamos, discutíamos o caso e aí terminava. Raras vezes - não lembro, na verdade, de nenhuma - voltamos pra ver como o paciente evoluiu. Porque as exigências que tínhamos eram essas. Então veio a disciplina de clínica.
O que antes era uma fotografia tornou-se um filme, e, além de acompanhar a evolução dos pacientes, acabamos nos envolvendo nos casos e podíamos de fato opinar e algumas vezes provocar alguma mudança na conduta a ser tomada. Nesse caso, a responsabilidade se tornou muito maior. Encontrei muitas histórias e muitos sentimentos, e me deparei com a morte e a terminalidade muito mais vezes do que imaginava, ou do que esperava, ou do que quisesse. Não é fácil. E talvez esse seja um dos principais motivos para eu ter voltado a escrever. Sejamos sinceros.
Por mais que saibamos que esse é nosso destino certo, a pessoa e a família dificilmente estão preparadas pra a terminalidade, e muitas vezes os profissionais que atendem o paciente também não. O processo de preparar-se é bem particular, tem duração e cota de sofrimento variáveis. Nos últimos meses, pude acompanhar diversas fases dessa jornada, e encontrei algumas daquelas nomeadas por Elizabeth Kuebler-Ross: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Além de acompanhar, pude identificar em mim as mesmas fases e a contratransferência que elas geraram. Escrevo porque há muito a aprender sobre a morte e o morrer, assim como sobre minhas limitações e desejos de crescer. Como diz uma frase que por alguns atribuída a Hipócrates: "Se puder curar, cura. Se não puder curar, aliviar. Se não puder aliviar, consola.".
Acho que era isso o que eu precisava compartilhar e sobre o que fiz vários rascunhos nos últimos meses. Faz parte do processo compreender e aceitar a própria finitude, e isso provoca urgência de viver e de ser melhor, mais justa, alegre, solidária, compreensiva, carinhosa, paciente. É um crescimento que dói, mas que nos ensina a ser mais fortes, delicados e simples, e a estar mais perto do próximo e de Deus.
Que 2015 seja um ano de muito aprendizado, fé, amor e simplicidade. Que eu possa ter caminhando ao meu lado os anjos que me acompanharam nas últimas jornadas, seja os que eu via todos os dias ou aqueles com quem trocava mensagens de texto quando o coração apertava de saudade.
Boa noite, anjos. Pra vocês, os sonhos mais doces que se pode sonhar.
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