Essa epígrafe da Clarice Lispector diz tudo. Pelo menos até o ponto que as palavras se calam.
Eu não tinha me lembrado exatamente do concurso de redação até que as pessoas começaram a desejar 'boa sorte', porque quando despejam expectativas você sente a pressão que não existia até o momento.
E então era hoje de manhã. Eu me apressei em uma sopa improvisada no almoço, porque não podia perder tempo; tentei ler o jornal na internet, mas nada me chamava atenção o suficiente. Não adiantava o quanto eu tentasse me informar sobre qualquer assunto atual, que minha mente não aceitava nenhuma carga mais. Tentei ouvir umas músicas no carro, mas não deu tempo de chegar em Patience pra me acalmar, quando as letras daquele livro de José Guimarães pareciam voar tão rápido quanto a paisagem do lado de fora, me fazendo avaliar que a outra margem do Guaíba nunca esteve tão perto.
As ruas eram curtas demais e não me deixavam parar de pensar sobre onde eu estava indo, e eu tremia do lado de fora daquela construção que parecia histórica. Fiquei imaginando quantos vestidos pomposos teriam descido aquelas escadas com um ar imponente, ou se seriam os padres da igreja ao lado, também da mesma época, que teriam vivido ali.
Depois aquela sala fechada, e quente. Éramos eu e as palavras, somente fulminando uma à outra. Nenhuma sabia o que fazer, o que dizer, como se alinhar no papel e nas cadeiras apertadas, com uma sinfonia ditada pelas pontas desencontradas dos lápis acariciando o papel, de leve ou com muita força, ansiosos.
As lágrimas quase saíram, quase.
Acabou que consegui fazer uma redação decente. Depois de desistir de diversos parágrafos e deixá-los inacabados, consegui passar as trinta linhas estipuladas; e se cheguei até lá, o que me impediria de passar mais uma etapa?
Aquele vento me reconfortou quando saí da sala. Era uma sensação de dever cumprido, uma coisa boa.
Eu podia respirar novamente; estava acordada, enfim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário